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Conveniências Mundanas

Sempre sereno Ganske; Que nos passou ao longo de todo este tempo? Trincheiras e valas comuns. Um ribombar constante. Porém, lúcido. Quem fomos nós ao largo de cada coisa conveniente e previsível? Amantes nostálgicos, provavelmente. Merecedores de belezas e subtilezas. Artistas invariavelmente inconformados. Certos, porém, do nosso destino. Sempre certos desse destino. Digo-lhe agora querido Ganske, ainda bem que conhecemos o abismo. E ainda bem que nas nossas leis não houve gravidade. Que ressurgimos como sempre ressurgiremos. Ainda bem. Como em tudo os bailados têm de encerrar com as suas cortinas de veludo. Ficam-nos as memórias. Ficamos com o caos à nossa frente. Ficamos sempre.  Por favor, não chore. De nada adianta. E olhe que sou crente em lágrimas que caem directamente dos nossos corações. Mas para quê? Choram as pernas das nossas bailarinas, chora o bailado eterno que teremos nos nossos corações.  Nós retomaremos um dia. Com músculos fo...

Técnica, Ganske!

Podemos ir por caminhos diversos, camarada Ganske, porém não hesitaremos em concluir, como já o fizemos, que a técnica se aprimorou ao longo dos tempos. Zakharova é disso exemplo. Lamentável como estivemos tão próximos e nem a consegui ver. Como em tudo que passa nas nossas sombrias vidas, neste caos disperso.  Como estamos sempre com o manto aveludado de Aurora sobre o nosso corpo. A toldar-nos o entendimento. A querer enfraquecer tudo o que somos e tudo o que prevalece, não obstante estes interregnos dolorosos e longos. E quanto mais tempo deixaremos a pobre dormir ausente? Esperaremos o desfecho com o beijo prometido? E todas as histórias como a Jon e Igor, os desertores que terminaram os seus dias num colchão cheio de traças a olhar um pátio repleto de despojos? Não nos desanimemos, não é isso. O triunfo virá para aqueles que acreditarem na sua força. Nos seus braços de realismo e nos seus maxilares abertos em grito de revolta. Disso não tenhamos dúvidas. A humanid...

Também não foi desta que desertei, caro Ganske!

Apesar do grande caos do cosmos capitalista. Dos enredos, por vezes promiscuos das paixões humanas resulta o mesmo que para os nossos camaradas de outrora. O horizonte iluminado pela grande estrela, a edificação do nosso carácter e o triunfo da nossa amada pátria socialista.  E de que pátria somos nós, Herr Ganske? Deste caos, verdade. Sem compartimentos além dos camarins do Bolshoi.  Fomos dançando outros bailados ao longo destas ausências, verdade. Mas como Moscovo não acredita em lágrimas, continuaremos as nossas comunicações em breve. Muito para breve. Deixe só passar esta confusão natalícia porque a desigualdade por vezes nos aprisiona e apesar de tudo sempre sonhamos com não terminar os nossos dias a revolver em contentores de lixo em busca de Pickles Spreewald. Como diria o seu vizinho Alex, esta talvez seria a pátria com que mais sonhamos do que aquela que realmente foi. E ainda vamos a tempo de ir. Sobretudo agora que o mundo regressa ao que sempr...

Ainda miramos a grande estrela, meu bom Ganske?

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Corremos sempre o risco de contar histórias com interregnos demasiado longos. De ausências que transformam a incerteza na constatação tácita de que a vida traz mais respostas pelo silêncio do que pelo barulho estridente. Não quero com isto anunciar o final trágico do seu bailado. Serene o seu espírito, caro Ganske. O que tiver de ser, será. Não é isso que o espírito cruel dos inimigos da classe operária vêm proclamando nas suas certezas categóricas? Que assim seja então. Damos-lhe a vitória, por enquanto. Tomemos a sua linguagem brusca e tão. Carregada dessas certezas. Deixá-los crer, que o mundo é assim, como o apregoam. Que o seu uivo padronizado vale mais do que todas as vozes silenciadas juntas. Porém, é assim como lhe digo. O dia chegará para que o silêncio seja a verdadeira voz. Por esse silêncio, virão as respostas do mais profundo que foi silenciado. Deixemo-nos embalar pela melodia de Tchaikovsky ou preparemos o grito de guerra de Shostakovich e a sua sublime sétima sinfonia...

Linhas escritas em cima de um joelho...

O título é esse, bom Ganske. Passamos a temporada inteira de inverno e nem uma linha sobre o seu final. Sobre os passos sublimes de Aurora, sem Carabosse com a sua beleza mais gritante.  Escrevo-lhe agora como se estivesse na linha do comboio. Na linha e não à margem. Que coisa é esta de estar na engrenagem? De cumprir o calendário do mundo e nele viver na fuga de um atropelamento? Poderia estar sentado na estação, vendo, quem sabe, outras almas percorrer a linha de comboio. Os movimentos peristálticos da humanidade, como costumava dizer.  Tudo é involuntário nesta coisa de sermos postos em cima dos carris. Tão involuntário como a dor que o tornozelo sente ao suportar o peso do corpo, o destino que paira sobre as nossas cabeças. E ainda assim vamos dançando ao som da mesma melodia. Primeiro o joelho direito em flexão ascendente, depois o impulso traseiro. A propulsão essa...que diremos sobre o que é? O que nos vale (aqui e somente entre nós) é que a grande estre...

Não Desertei, Senhor Ganske

Som de fundo: Sinfonia n.º 7, Op.60 em Dó Maior, Allegreto, Shostakovich. Leu bem o título querido Ganske. Não desertei. Estive fisicamente ausente na temporada de inverno (e olhe que ela já avança para a primavera), dos Actos da Bela Adormecida ou do Lagos dos Cisnes. Como lhe digo, fisicamente. As ideias, essas, continuam sempre por aqui, ora homenageando, ora repudiando a Grande Estrela. Há sempre um sentido de verdade na negação (Se a é a negação de não-a...).  Recordo-me de ter havido há tempos uma polémica sobre isto. Nas páginas do jornal da nossa existência, convivência mundana com isto que nos rodeia tinha-se por verdade o objecto. Neste caso, a estrela. Esqueçamos a qualificação. Apenas poderia atrapalhar. O que queremos é o contrário, a conclusão de que a e não a se referirão sempre à estrela. Um, claro afirma-a, outro nega-a. Ambos reconhecem-na, contudo. Até um certo ponto. Depois um entra na espiral da negação e o outro permanece na mesma crença indubit...

Ano Novo...Bailado Velho

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Querido Ganske; Acredite. Esta ausência (curta) doeu-me tanto a mim como a si. Zakharova esteve em Roma no passado dia 21 de Dezembro. Estivemos ambos, à nossa maneira, expectantes com as notícias desse bailado ( a sós, talvez).  O que lhe trago hoje é praticamente um telegrama. Árido como todos os telegramas. Drástico (como o fio do telefone enrolado à volta de um pescoço). As comunicações têm disso, de uma certa aridez, de uma certa tragédia. Pense-se nos telegramas de guerra. No estoustopbemstop entre amantes. Nas mentiras que nesses dias nos iludimos em crer. Como cremos em mentiras... É isto caro Ganske. Por enquanto, por um tempo indeterminado. Enquanto o sol não surgir no seu horizonte. Enquanto houver mais vontade de não existir do que de existir. Fiquemos com Vasiliev. Pelo menos Vasiliev para nos levar para uma terra onde existe belo e sublime. Só para não apagarmos a chama do nosso bailado.  Sempre seu,