Conveniências Mundanas




Sempre sereno Ganske;


Que nos passou ao longo de todo este tempo? Trincheiras e valas comuns. Um ribombar constante. Porém, lúcido.


Quem fomos nós ao largo de cada coisa conveniente e previsível? Amantes nostálgicos, provavelmente. Merecedores de belezas e subtilezas. Artistas invariavelmente inconformados. Certos, porém, do nosso destino. Sempre certos desse destino.

Digo-lhe agora querido Ganske, ainda bem que conhecemos o abismo. E ainda bem que nas nossas leis não houve gravidade. Que ressurgimos como sempre ressurgiremos. Ainda bem.

Como em tudo os bailados têm de encerrar com as suas cortinas de veludo. Ficam-nos as memórias. Ficamos com o caos à nossa frente. Ficamos sempre. 

Por favor, não chore. De nada adianta. E olhe que sou crente em lágrimas que caem directamente dos nossos corações. Mas para quê? Choram as pernas das nossas bailarinas, chora o bailado eterno que teremos nos nossos corações. 

Nós retomaremos um dia. Com músculos fortes e definidos. Com as bigornas poisadas no lugar das bigornas. Cantaremos então, um dia. Quando soubermos que não existem mais valas onde possamos padecer. Assim que tivermos a certeza de que o trilho é só um e alcançarmos a grande glória da nossa estrela iluminada. 

Agora seremos somente perante o caos. Revoltando os nosso pincéis e os nossos passos subtis como sempre o fizemos. Por ora seremos nós!

Permito-lhe uma lágrima. A mesma que me permito a mim. O bailado findou. Curto e intenso como todas as coisas que fazem verdadeiro sentido. 

Até sempre meu bom Ganske, 

morreremos para renascer, não duvide. 

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