Mais dos Cadernos de Porto Oco
Por Afonso,
Tenho dias em que confesso que não sei o que sou. Nesses, permaneço em absurdo silêncio enquanto olho o velho pontão que rasga o mar.
Digo absurdo porque assim o é, uma ausência de voz aparente, uma casa vazia, porém a gritar de memórias.
Num desses silêncios, desfiz-me da última mala de Matilde. Tomei, durante largos anos, por dolorosa a matéria. Quando o fiz, por fim, foi como se a lançasse ao mar numa jangada, rumo ao infinito.
Não sou de místicas. Fico entre o concreto e o imaginário. Mas senti algum alívio ao pensar que a sua alma agora percorre aquilo que sempre quis percorrer, um mundo sem fim de descobertas. Como se no cetim dos seus vestidos voasse agora a sua essência. Rumo ao infinito, reitero.
E é mesmo nestes dias que não sei o que sou porque sei que me agarro demasiadas vezes à sua ausência. Vivo por ela, respiro por ela. Passo horas a imaginar os seus passos suaves pela casa, a mesma que nunca conheceu porque aqui cheguei e era já uma partida.
Como seria se deambulasse pelo sótão, pelas arcas misteriosas deixadas pelos antigos donos. Como seria ao colocar a água ao lume a ferver para um chá. Como seriam as suas carícias quando passasse por mim sentado na poltrona da sala.
E não sei o que sou porque me perturba sentir a sua ausência. Eu que sou do concreto, economista de formação. Que vejo a realidade das coisas como elas se apresentam. Vejo-me agora perdido entre a dolorosa partida que cresce à medida que o tempo passa. E dói-me saber que não sei quem sou, enquanto se me enruga o rosto e o dela permanece, em memória, jovial e fresco como sempre. E dói-me ainda mais saber que tudo isto me dói.
Deixo-me levar pelo silêncio. Passeio por Porto Oco. Permito que os urros dos pescadores que arrastam as redes sejam também eles os meus. Precisamos do mesmo sustento preso nas redes, arrastados pela força braçal. Não falamos, apenas gememos em dor e resignação.
Não me reconheço nestes silêncios. Não sei quem sou quando vejo o mar ao fundo e o velho pontão que o rasga. Olho para Porto Oco e para a sua escarpa e sinto-me perdido num lugar que não é meu. Fico confuso porque não posso fugir de mim.
E sei que não é já pela sua partida. Essa já a deixei ir como uma jangada no mar. Rumo ao infinito. E com ela foi a última mala que lhe pertencia. Agora fica o vazio. O silêncio. Fica Porto Oco e fico eu a tentar descortinar quem serei.
Comentários
Enviar um comentário