O palco dos Grandes Clássicos - A Bela Adormecida
Querido Ganske;
Todos nós, apreciadores da exclusividade e subtileza do balê clássico, sabemos que os grandes contos populares da história da humanidade viram o seu brilho nas pernas dos grandes bailarinos. Todas estas histórias, contadas a crianças sonhadoras (não esqueçamos que todo o sonho vem carregado de um negrume que lhe é próprio) puderam alcançar a glória eterna, de património cultural, pelo esforço dos grandes coreógrafos.
Porém, antes dos grandes coreógrafos (vénia seja feita ao eterno Marius Petipa), Tchaikovsky brindou-nos com uma versão de A Bela Adormecida, muito provavelmente inspirada na versão de Charles Perrault. É certo que seria interessante ver os Irmãos Grimm, com a sua corrente negra, a esquartejar a história da doce Aurora (ainda que na sua obra fosse apenas A Princesa), porém, no auge do romantismo poético, recuperar as tradições de outrora e a beleza porventura exagerada dos ornamentos barrocos traria uma outra composição, certamente mais polida, preocupada com valores artísticos e estéticos decorrentes da obra de arte.
Abstenho-me, caro Ganske, por ora, de dissecar aqui os fundamentos da arte e a forma como o romantismo a terá tornado demasiado humana. Nenhuma destas considerações seria suficiente para afastar a beleza e a perfeição do bailado de Tchaikovsky, perpetuado pela coreografia de Petipa. Nem tão pouco a circunstância de nos lábios rubros da bela Aurora (aqui vou directamente à versão do ocidente, no filme de 1959, da Disney) sobressair a força do amor sobre as trevas, ainda que estas sejam tão prolongadas que quase se tornam a verdade do mundo e a forma como este se mostra (o que diria o velho Schopenhauer sobre isto?), me permitiria fugir da beleza sublime da composição.
O bailado de que aqui falo teve a sua expressão, diria máxima, se Nureyev me perdoar (juro que nada tenho contra outras companhias de bailado que não sejam russas), no Teatro Kirov, pelos alongamentos de Alla Sizova e Yuri Solovyov, dos quais falarei noutra ocasião. É certo que em beleza outros os igualaram, mas é a versão do Kirov (hoje Mariinsky) a que mais curiosidade me suscita.
Estamos, portanto, no ano de 1964, um ano de importante viragem para a União Soviética. A transição entre Khruschov e Brezhnev, que parecia prometer um novo período de paz e de abertura, em que o padrão de vida das pessoas melhorou consideravelmente, não foi mais do que uma ilusão perdida nos seios da nossa tão querida doutrina. E a par disso, em Leningrado, Alla Sizova e Yuri Solovyov dançavam um conto que em nada se parecia com a vida dos nossos camaradas proletários. Um mundo de fadas e de ornamentos em ouro, de sedas e salamaleques. Curioso? Nem tanto...talvez e, ao contrário do que nos têm prometido, afinal tenhamos mesmo um espírito e este se deleite com contos de fadas, com mundividências cruzadas com um mundo de fantasia. Talvez neste enleio entre as peripécias da inocente Aurora todos se fossem esquecendo do duro labor que a nossa sociedade promete. Talvez assim lhes escapassem as primaveras e subsequentes repressões, cisões e abandonos. Provavelmente desta maneira compreenderiam como era bom viver com sonhos no lugar dos sonhos e regressar ao labor de uma sociedade socialista (árduo pela natureza das coisas). No entanto, nada sei. Para nosso deleite, aqui partilho um video encontrado na internet, um excerto, nada mais.
Seu,
A.
P.S.: Esta carta ficou incoerente e por terminar. Voltarei à Bela Adormecida em breve.
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