Continuando com A Bela Adormecida
Querido Ganske;
Novamente seguimos com A Bela Adormecida. Note que apesar de esta ser uma segunda carta (semelhante às insistências das companhias telefónicas) ainda nem entramos no prólogo. Carabosse ainda vem longe com as suas benzodiazepinas (curioso como de uma conversa perfeitamente banal como esta podemos antever o estado do mundo em que vivemos), já para não falar do beijo mágico que despertará Aurora do seu sono prolongado e profundo.
O objectivo, contudo, gentil Ganske, é nem entrarmos no prólogo. Pelo menos para já. Na carta anterior fiz uma referência, muito breve, à histórica performance no Teatro Kirov. Talvez tenha pecado por alguma leveza de espírito. O tempo por estes lados anda leve e fresco, veloz como só ele e quando damos por nós, dizemos aquilo que pretendemos fora do tempo certo. Todavia, repensando aquilo que lhe queria transmitir, tão pouco é esse o assunto que me ocupa neste momento.
Sairemos, como já deve antever, pela sua aguçada perspicácia, do tema do balê. Não falaremos da Zhakarova nem de Uvarov, de Maximova ou Vasiliev nem sequer da inusitada história de Igor e Jon. Nada disso. Anteciparemos o final do segundo acto do nosso bailado. Deixaremos as bailarinas descansar as pontas dos seus pés, retocar a maquilhagem, fumar um cigarro...
Falo do beijo, como deve compreender. Aquele beijo que da eternidade trouxe o fim, a glória pretendida. O casamento que estará por vir no terceiro acto. Se vier...
Ouso pensar que os dias por aqui são demasiado tristes e solitários para sonhar com beijos e despertares do sonho. Atrevo-me mesmo a perguntar-lhe, bom Ganske, se não significa aquele beijo a morte em si? Isto provavelmente já foi pensado e repensado mas quando a luz cai sobre o casal amante, sobre os lábios suaves de Aurora (uma qualquer) não estará aberta a porta para o infinito celestial. Sei que estas coisas podem ser ditas entre nós, mesmo que nos digam que o que importa é o mundo material em que vivemos. Reconheço que estou a antecipar com gravidade as consequências daquele beijo, da potência meramente estática de Aurora. Do príncipe que quando vem liberta.
Creio que nem todos esperamos estes beijos. Uns mais do que outros. Não os beijos dos contos de fadas mas os beijos que nos levem para a terra onde não se existe...
Já o imagino a dar uma palmada na testa quando ler isto. Foi apenas um interregno. Retomaremos as comunicações em breve. Hoje, mais do que nunca, a urgência é de esperar, pacientemente, que o prólogo avance no seu tempo para entrarmos na história o quanto antes.
Sempre seu,
A.
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