Depois de um breve interregno...
Dirijo-lhe novamente umas palavras de alento e conforto.
Hoje é daqueles dias em que se faz sentir a força da intempérie. Não necessariamente que o tempo esteja mau. Exageramos todos quando nos referimos a mau tempo. Recontamos a história à nossa maneira, assim é.
Este palavreado do tempo fez-me lembrar a história do bailarino que em tempos desertou. Uma jovem promessa no seu país, uma das mais aclamadas figuras no ocidente capitalista. E a sua relação secreta com outro bailarino (abstenho-me de nomes porque estas coisas são sempre subentendidas). Contam as histórias (rumores, para ser exacto) que sonhavam ambos em pisar o palco em simultâneo. E fizeram-no antes que o soubessem.
Enquanto Igor (chamemos-lhe assim) segurava nos seus braços a doce Svetlana, Jon ficava a meia luz, ao fundo, num tendu permanente, ao lado de Irina. Jon. A companhia não lhe dava outro destaque que aquele, a meia luz de fundo, a personagem que a história não recordaria.
Igor também não estava destinado a ser primeiro bailarino. Não podia por causa da altura. Como segurar Svetlana se esta tinha exactamente as mesmas medidas? Impossível! Aí está a causa da deserção. No ocidente as medidas pouco ou nada importavam. Técnicos formados em várias escolas, especialistas em ilusionismo, encarregar-se-iam de fazer chegar ao público a sua imagem de homem alto, viril.
Jon acabaria por desertar. Fundou com sucesso uma escola de dança contemporânea. Ensaiou novos passos e foi aclamado pela crítica. Contudo, tudo numa cadência quase trágica. Acabou a gravar videos de "dance workout" para mulheres flácidas e sem esperança. Relegadas e renegadas do balê da vida por ser já demasiado tarde para começar. Demasiado tarde mesmo. Ficariam apenas com o gosto de saber alguns passos, incorporados entre salsas e merengues, um pouco de tango e nada da euforia do palco. Talvez dançassem para os seus companheiros. Estes, por sua vez, adormeceriam ao som dos noticiários, aborrecidos com o mundo que os rodeava.
Pelo menos Igor e Jon tinham-se um ao outro. Ainda que secretamente. Num quarto escondido de uma pensão mal frequentada. Desengane-se, Ganske, se pensar que iam para lá de propósito. Viviam lá, entre colchas com queimaduras de cigarros, a paredes meias com ocupantes ocasionais. Com velas para espantar o mau cheiro, embalagens de plástico e picadas no corpo provocadas pelas colónias de bichos.
Igor amaldiçoou este destino como quem se pune pelas escolhas feitas. Este não era um problema daquele país. Os palcos deixaram de lhe servir. As elites passaram a preferir manjares com olhos de vaca fritos e espécies raras. Igor e Jon tinham-se um ao outro nos bastidores.
Por isso é com grande espanto quanto vemos saudosistas a recordarem personagens que não o foram. Alguma vez alguém imaginaria Igor a trajar um casaco roto para ir à loja de conveniência comprar cigarros? Nem por sombras. Da mesma maneira que ninguém quer contar a história árida e praticamente vazia dos dias passados naquela pensão, entre um fumo denso e tossidelas de fim de vida. Talvez sejamos assim, contadores de histórias invertidas. Preferimos sempre um pas de deux entre Svetlana e Igor do que as agressões que a vida foi provocando em Igor e Jon. Sabe o que lhe digo caro Ganske (em jeito de desabafo)? É que tudo isto é mesmo uma merda.
Perdoe-me este desabafo final. É contraditório. Pelo contrário procuramos agora a história por contar. Todos o fazemos. Queremos a parte não contada. Reivindicamos sugar até à alma os dias mudos de Igor ao lado de Jon. Os dias em que a beleza se esvaiu como o sangue dentro da tumba. Como o sopro divino no momento da meia queda (só sabemos que morremos até metade do processo) afugentou anos a fio de glórias e conquistas.
Agora oiço passos em redor. O Lago dos Cisnes recomeça em breve. Pelo menos Tchaikovsky deixou a sua melodia. Talvez só os músicos perdurem. Enquanto isso, vamos-nos imiscuindo nas amarras da vida. Enquanto isso, fica um detalhe por contar de história de Igor e Jon.
Agasalhe-se na medida do possível. Ouvi dizer que irão servir chá e bolo de frutas no salão principal. Cuidado com as reuniões.
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