Enquanto Carabosse...




Vai passando por aqui, querido amigo, já vamos sentindo o entorpecimento. Aquele peso nas pálpebras que se sente quando bafejados pela morte nos entregamos, por fim, ao eterno. Se houver eterno. 

Há tanto que lhe poderia dizer a propósito de uma breve ausência das nossas comunicações. Começaria pelo engano no mundo, herr Ganske. Repare que digo no e não do. Impossível estar o mundo errado e, segundo, não obstante a intempérie, a estrela socialista continuou firme, no seu exacto lugar e este era o mais exposto de todos. Caiu o tecto, partiram-se as portas, instalou-se o medo...

Agora imagine o seguinte cenário. Passei há dias por isto. Num caminho rolava uma esfera. Na berma um velho sentado fumava um charuto enquanto do outro lado, Isobel, prostituta de profissão ajeitava as meias. O velho teve a sensação de ver uma truta salmonada de proporções gigantescas a passar-lhe por detrás do banco. Era impossível que assim acontecesse. Caso fosse assim, Isobel teria lançado um grito ou um gemido e a esfera não poderia rolar mais. Num mundo assim as esferas não rolam, nem as prostitutas ajeitam as suas meias de vidro num parque. A mulher do comandante não passaria com o seu casaco de peles e o velho não estaria a fumar charuto sentado. 

Percebe isto? Creio bem que sim. Creio que antevê também o desfecho desta história. Sim, de facto Carabosse tem permanecido por aqui, com a sua subtil elegância (umas meias melhores do que a outra). Cumprimentou-me há um par de dias. Disse-me que tínhamos de falar. Cortaram-me o telefone porque fiquei sem voz, repliquei. Nada disse. Passou no parque e o velho pouca importância lhe deu. Ia acrescentar que já tinha telefone novamente. Foram alguns dias. Pouco tempo. Mas sabe como é Carabosse. Veja o estado em que ficou a pobre Aurora. Cem anos à espera do beijo milagroso é muito tempo e no entanto, cem anos quase nada são para a desgraça em que vai o mundo. 

É certo que já fabricam meias de vidro e é certo que aquele homem podia fumar o seu charuto tranquilamente. Mas como lhe digo, querido Ganske ( por favor não negue) nem sempre estamos certos no mundo. Jon e Igor não estavam. Lamento, mas por ora não me apetece falar mais. Tanto como por ora não me apetece existir mais. Contemplemos, sobriamente, a estrela que ficou intacta e deixemos que Carabosse se farte. Sim, isso irá acontecer. Mais cedo ou mais tarde e não virá o príncipe. Adianto-lhe já a história. Aurora que espere. A estrela não caiu. Não são as ausências que nos matam. 

Retomarei assim que as pálpebras se abrirem. Por ora, ficamos por aqui.

Sempre seu,

A.

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