Por Afonso, Tenho dias em que confesso que não sei o que sou. Nesses, permaneço em absurdo silêncio enquanto olho o velho pontão que rasga o mar. Digo absurdo porque assim o é, uma ausência de voz aparente, uma casa vazia, porém a gritar de memórias. Num desses silêncios, desfiz-me da última mala de Matilde. Tomei, durante largos anos, por dolorosa a matéria. Quando o fiz, por fim, foi como se a lançasse ao mar numa jangada, rumo ao infinito. Não sou de místicas. Fico entre o concreto e o imaginário. Mas senti algum alívio ao pensar que a sua alma agora percorre aquilo que sempre quis percorrer, um mundo sem fim de descobertas. Como se no cetim dos seus vestidos voasse agora a sua essência. Rumo ao infinito, reitero. E é mesmo nestes dias que não sei o que sou porque sei que me agarro demasiadas vezes à sua ausência. Vivo por ela, respiro por ela. Passo horas a imaginar os seus passos suaves pela casa, a mesma que nunca conheceu porque aqui cheguei e era já uma ...
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