Técnica, Ganske!



Podemos ir por caminhos diversos, camarada Ganske, porém não hesitaremos em concluir, como já o fizemos, que a técnica se aprimorou ao longo dos tempos. Zakharova é disso exemplo. Lamentável como estivemos tão próximos e nem a consegui ver. Como em tudo que passa nas nossas sombrias vidas, neste caos disperso. 

Como estamos sempre com o manto aveludado de Aurora sobre o nosso corpo. A toldar-nos o entendimento. A querer enfraquecer tudo o que somos e tudo o que prevalece, não obstante estes interregnos dolorosos e longos. E quanto mais tempo deixaremos a pobre dormir ausente? Esperaremos o desfecho com o beijo prometido? E todas as histórias como a Jon e Igor, os desertores que terminaram os seus dias num colchão cheio de traças a olhar um pátio repleto de despojos?

Não nos desanimemos, não é isso. O triunfo virá para aqueles que acreditarem na sua força. Nos seus braços de realismo e nos seus maxilares abertos em grito de revolta. Disso não tenhamos dúvidas. A humanidade não se compadeceu com aqueles que ficaram aquém, a dormir sob o manto de Aurora, expectantes na glória celestial. Pois claro, amigo Ganske, tudo tão óbvio e ao mesmo tempo inútil. Porque o corpo sofre a cadência dos seus movimentos e os ossos estalam em cima do palco. O mundo poisa os seus olhos cruéis porque no fundo somos todos segundos bailarinos destes actos. 

Que terrível confusão meu bom Ganske! Agora que retiraram o balê da televisão e justamente na altura em que mais precisávamos de nos deleitar com o justo labor da nossa pátria. Precisamente neste instante em que as nossas convicções são um caos e nos aturdimos com movimentos pesados, vapores densos de comboios que partem para lugar incerto. 

E no entanto, convenhamos, nunca a técnica esteve tão perfeita. Nunca os movimentos foram tão bem executados. Será a nossa glória o caminho para ela? Ou seremos efectivamente a poeira de Mocca Fix Gold? De que valerá tudo isto, por fim? De que valerá que Carabosse se mate e elimine? Estará sempre lá, querido Ganske. Sempre lá. 

Não fique triste. Sorria. O melhor é sempre sorrir. Mesmo que carreguemos entre os nossos braços as bigornas mais pesadas. No espírito teremos sempre o planar das cegonhas. Quando as cegonhas passam. 

E para alguma coisa a técnica nos há-de servir. Como nos serviu sempre o grito silenciado da nossa revolta. Que é como dizer, virá o príncipe beijar os lábios rubros de Rosa. Dançaremos, por fim, um triunfal pas-de-deux e compreenderão, eterno Ganske, que o fazemos sobre a vitória. 

Pela nossa amada pátria socialista.

Não se constipe. Vozes fanhosas não podem gritar de revolta. Bem lhe digo que se agasalhe e que feche a janela, pelo menos enquanto se deita. 

Sempre seu,

Com uma lágrima nostálgica.

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