Linhas escritas em cima de um joelho...
O título é esse, bom Ganske. Passamos a temporada inteira de inverno e nem uma linha sobre o seu final. Sobre os passos sublimes de Aurora, sem Carabosse com a sua beleza mais gritante.
Escrevo-lhe agora como se estivesse na linha do comboio. Na linha e não à margem. Que coisa é esta de estar na engrenagem? De cumprir o calendário do mundo e nele viver na fuga de um atropelamento? Poderia estar sentado na estação, vendo, quem sabe, outras almas percorrer a linha de comboio. Os movimentos peristálticos da humanidade, como costumava dizer.
Tudo é involuntário nesta coisa de sermos postos em cima dos carris. Tão involuntário como a dor que o tornozelo sente ao suportar o peso do corpo, o destino que paira sobre as nossas cabeças. E ainda assim vamos dançando ao som da mesma melodia. Primeiro o joelho direito em flexão ascendente, depois o impulso traseiro. A propulsão essa...que diremos sobre o que é?
O que nos vale (aqui e somente entre nós) é que a grande estrela poderá estar algures, ao longe, luminosa e pontiaguda. Estará, talvez...Perdoe-me este confessar de dúvida momentânea mas estar na linha e não à margem pode levar ao atropelo.
Em todo o caso só lhe digo que creio que o inverno, uma vez mais, se prolongou pela primavera e que algures no nosso dia ficaremos, como Jón, sentados na beira da cama a contemplar um pátio traseiro. Outras teremos a mesma força de pernas de Vasiliev ou de Mikhail. Percorreremos destinos diferentes, é certo e tudo em nome de sermos livres. Tudo, no entanto, com a certeza de que o ponto de chegada poderá ser o mesmo.
Já o imagino a colocar a mão na testa, desaprovando algo tão óbvio. Só lhe digo, adiantando contestação, que na linha, em pleno movimento, só o óbvio nos salva. E desejaremos (rezemos se assim for a nossa inclinação) pelo conforto das coisas óbvias. Pelas imagens serenas da infância, pela percepção melódica que temos do previsível.
Dir-me-á, melhor percorrer os trilhos sinuosos para o engrandecimento. Conheço a sua filiação junto ao grande filósofo.Também perfilho desse entendimento. Ou não. Releia a última carta. Ainda os soldados caminhavam agastados de regresso a casa e encontraram mais uma trincheira. Precisaremos então de provocar um tal destino?
Não é o desalento que me faz escrever estas linhas em cima do joelho. Nunca será, pelo menos na chama inextinguível do nosso espírito. Por agora o telefone toca relembrando que o comboio parte. Assim me despeço, desejando brevidade.
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