Não Desertei, Senhor Ganske



Som de fundo: Sinfonia n.º 7, Op.60 em Dó Maior, Allegreto, Shostakovich.


Leu bem o título querido Ganske. Não desertei. Estive fisicamente ausente na temporada de inverno (e olhe que ela já avança para a primavera), dos Actos da Bela Adormecida ou do Lagos dos Cisnes. Como lhe digo, fisicamente. As ideias, essas, continuam sempre por aqui, ora homenageando, ora repudiando a Grande Estrela. Há sempre um sentido de verdade na negação (Se a é a negação de não-a...). 

Recordo-me de ter havido há tempos uma polémica sobre isto. Nas páginas do jornal da nossa existência, convivência mundana com isto que nos rodeia tinha-se por verdade o objecto. Neste caso, a estrela. Esqueçamos a qualificação. Apenas poderia atrapalhar. O que queremos é o contrário, a conclusão de que a e não a se referirão sempre à estrela. Um, claro afirma-a, outro nega-a. Ambos reconhecem-na, contudo. Até um certo ponto. Depois um entra na espiral da negação e o outro permanece na mesma crença indubitável. Ela contudo existe, pontiaguda e luminosa. 

Lembrei-me disto a propósito da história dos nossos desertores. O traço foi carregado para lá das fronteiras. Mesclou-se com a novidade e o vigor da liberdade mas perdeu o sentido de raiz. Isto foi o que aconteceu com o casal cuja história não terminei de contar. Nem terminarei. Só direi, chegarão porventura à conclusão de que nunca deixaram de ter por referência a estrela. E se assim é, a negação torna a vida inteira num absurdo. Verdadeiro e trágico absurdo. Ainda assim necessário.

Por isso lhe digo que repudiando também homenageamos. Reafirmamos a crença, talvez. Compreendemos que da nossa natureza nada mais restará do que incerteza. Que poderíamos ter trilhado este caminho ou poderíamos ter escolhido outro. Que nada importa, por fim. E o objecto torna-se então o que importa, escravos da aceitação ou negação.

Oiça o som de fundo e entenderá o que digo. Oiça-o com a atenção plena de quem espera nele encontrar tudo de que depende a própria vida. O resto pouco importa. No intervalo reveja uma performance de Vasiliev. Sublime!

Por ora tenho a cabeça a ferver. Cuidado com as dissuasões. A ironia pode ser uma boa arma mas se dela abusarmos acabaremos num circo. 

Alegria e saúde, camarada Ganske!

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Mais dos Cadernos de Porto Oco

Cadernos de Porto Oco - Outros excertos

O palco dos Grandes Clássicos - A Bela Adormecida