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Cadernos de Porto Oco - Outros excertos

Por Afonso Cacilda limpa-me a casa uma vez a cada quinze dias. Vem com o seu ar de prontidão. É um pouco simplória mas agita um pouco dos meus dias e isso traz-me alguma frescura. Não gosto dela, não nesse sentido. É bem casada e tem dois filhos. Contudo, traz-me alguma frescura.  Compro o peixe no porto de pescas a Ramiro. É um homem rude mas não me tenta enganar. Poderia fazê-lo, eu que não sei distinguir entre uma e outra espécie.  Raramente tomo café fora mas quando o faço vou a uma tasca onde Manuel trabalha. É bem disposto. Feliz, creio. E com ele tomo também uma ligeira dose de felicidade.   

Mais dos Cadernos de Porto Oco

  Por Afonso, Tenho dias em que confesso que não sei o que sou. Nesses, permaneço em absurdo silêncio enquanto olho o velho pontão que rasga o mar.  Digo absurdo porque assim o é, uma ausência de voz aparente, uma casa vazia, porém a gritar de memórias.  Num desses silêncios, desfiz-me da última mala de Matilde. Tomei, durante largos anos, por dolorosa a matéria. Quando o fiz, por fim, foi como se a lançasse ao mar numa jangada, rumo ao infinito.  Não sou de místicas. Fico entre o concreto e o imaginário. Mas senti algum alívio ao pensar que a sua alma agora percorre aquilo que sempre quis percorrer, um mundo sem fim de descobertas. Como se no cetim dos seus vestidos voasse agora a sua essência. Rumo ao infinito, reitero. E é mesmo nestes dias que não sei o que sou porque sei que me agarro demasiadas vezes à sua ausência. Vivo por ela, respiro por ela. Passo horas a imaginar os seus passos suaves pela casa, a mesma que nunca conheceu porque aqui cheguei e era já uma ...

Marcha

Querido Ganske, Lamento saber que Frau Schaffer ficou de trombas consigo durante um dia inteiro depois da minha última comunicação. Não se zangue com ela. Ofereça-lhe flores e leve-a a passear no promenade operário. Da minha parte, não era minha intenção causar qualquer distúrbio conjugal. Não quero ser o causador de panos de loiça que voam e de cadeiras que caem ao chão. Mas é que poucos compreenderão estas nossas comunicações... Talvez abra aqui um pequeno capítulo para explicar, da minha parte (que, creio, à sua corresponderá também) como tudo isto se iniciou. Muitos pensam que temos o mesmo gosto por balê. Não poderiam estar mais enganados. O deleite do bailado é inteiramente seu. Percebo muito pouco, quase nada sobre o assunto. E como tal, pouco ou nada poderia apreciar. Isto é, mais do que uma mera curiosidade sobre aquilo que é uma verdadeira paixão sua. Pela técnica, pela interpretação rigorosa dos nossos ideais (como na interpretação do jovem Werther) . Pela força e robustez d...

Referências, Caro Ganske

Todos teremos as nossas.  Durante muito tempo acreditei que as minhas se materializavam na grande estrela luminosa. Não pude estar mais enganado. Não por ter acreditado nos ideias que fazia brilhar com as suas pontas mas porque o mundo levou um sentido contrário e com ele, caro Ganske, acredito que também nós.  A estrela ainda está lá. Como disse em comunicação anterior, não a desmontaram. Desligaram-lhe a eletricidade mas não a retiraram do mesmo lugar alto de onde continua a ser bastante visível. Por vezes ainda passo por lá. Em dias em que a pequenez volta a tomar conta de mim e parece que continuo a viver numa ilha isolada. Como digo tantas e tantas vezes, mudei a geografia mas não deixei de procurar o mar no fim de cada lomba ou depressão.  Deixemos, porém, de lado, considerações meramente pessoais (e comezinhas) sobre aquilo que acredito ser uma fase de puro existencialismo. A força braçal rejeita-o e eu, se me permite, pela mera conveniência de poder pensar mais al...

A esta distância, Ganske!

Nunca, por um momento, o tirei do meu pensamento. Claro que as contingências puramente práticas da vida nos fazem remeter as lembranças para um lugar onde voltamos apenas quando podemos (ou queremos). Como a loiça de festa que guardamos na esperança, tantas vezes vã, de que a usaremos um dia com o mesmo tom com que celebramos a nossa pátria. Não me atrevo a completar a frase. Porém, tal como a loiça de festa, também os ideais que nos uniram (o grandioso balé) foram rachando com o tempo e com o uso. Algumas manchas ficaram-lhe coladas na cor dos seus rebordos. Outras, de garfos que feriram o seu fundo. Não quero dizer que não estejam lá (os passos certeiros e belos de Vasiliev, o vôo deslumbrante de Ekaterina). Ainda há dias passei pela grande estrela e continua bela e intacta como sempre. Os camaradas não a voltaram a ligar mas, em todo o caso, não a desmontaram.  Também se a ligassem, não estou certo de os meus olhos suportarem a luz. A vista fere-se de cansaço. Não de amargura (r...

Tag, Herr Ganske

Afinal tive de voltar. Quem diria? Poderão mesmo as minhas despedidas ser assim tão descomprometidas? Isto é, digo-lhe, de forma categórica que não volto às comunicações. Que me fartei dos atrasos constantes na linha e cá estou eu, sentado no mesmo café triste de sempre e com a cabeça, como sempre no primeiro acto.  E fico-me aí, pelo primeiro acto. Quando devia estar no segundo. Como em tudo. O primeiro acto. O primeiro. Console-se, porém, caro Ganske! Carabosse aparece sempre mais cedo. Sempre malévola. Desta vez, porém, ando com escudo protector a benzodiazepinas. Aborrecido, no entanto, por ter de dactilografar isto. Será como reviver pensamentos tumultosos... Não falo de si, descanse. Sei que chora estas ausências. Como eu choro, de vez em quando. Já sabe como fico quando me alinho na doutrina. Moscovo não acredita em lágrimas e por ora eu também não. Mas como as despedidas tudo é demasiado temporário e não findável na minha condição. Ou será antes infindável? ...

Conveniências Mundanas

Sempre sereno Ganske; Que nos passou ao longo de todo este tempo? Trincheiras e valas comuns. Um ribombar constante. Porém, lúcido. Quem fomos nós ao largo de cada coisa conveniente e previsível? Amantes nostálgicos, provavelmente. Merecedores de belezas e subtilezas. Artistas invariavelmente inconformados. Certos, porém, do nosso destino. Sempre certos desse destino. Digo-lhe agora querido Ganske, ainda bem que conhecemos o abismo. E ainda bem que nas nossas leis não houve gravidade. Que ressurgimos como sempre ressurgiremos. Ainda bem. Como em tudo os bailados têm de encerrar com as suas cortinas de veludo. Ficam-nos as memórias. Ficamos com o caos à nossa frente. Ficamos sempre.  Por favor, não chore. De nada adianta. E olhe que sou crente em lágrimas que caem directamente dos nossos corações. Mas para quê? Choram as pernas das nossas bailarinas, chora o bailado eterno que teremos nos nossos corações.  Nós retomaremos um dia. Com músculos fo...