A esta distância, Ganske!



Nunca, por um momento, o tirei do meu pensamento. Claro que as contingências puramente práticas da vida nos fazem remeter as lembranças para um lugar onde voltamos apenas quando podemos (ou queremos). Como a loiça de festa que guardamos na esperança, tantas vezes vã, de que a usaremos um dia com o mesmo tom com que celebramos a nossa pátria. Não me atrevo a completar a frase.

Porém, tal como a loiça de festa, também os ideais que nos uniram (o grandioso balé) foram rachando com o tempo e com o uso. Algumas manchas ficaram-lhe coladas na cor dos seus rebordos. Outras, de garfos que feriram o seu fundo. Não quero dizer que não estejam lá (os passos certeiros e belos de Vasiliev, o vôo deslumbrante de Ekaterina). Ainda há dias passei pela grande estrela e continua bela e intacta como sempre. Os camaradas não a voltaram a ligar mas, em todo o caso, não a desmontaram. 

Também se a ligassem, não estou certo de os meus olhos suportarem a luz. A vista fere-se de cansaço. Não de amargura (rejeitei-a tal como o fiz com as benzodiazepinas). A vista fica em bico com aquelas mesmas vicissitudes de uma vida prática e terrena. Guardamos a loiça de festa para as festas e no dia a dia, colocamos o que comemos em caixas para levar para o trabalho. Adormecemos ainda Carabosse não apareceu. O seu feitiço prolonga-se pelo tempo. Atravessa o espaço. Vive em nós como aquilo que chamamos de inevitabilidade.

Não meu caro Ganske! Não o esqueci, nem por um instante. Sei que ainda aprecia o seu balê. Vejo-o nos mesmos olhos de sempre. Pequenos e redondos, na companhia da sua amada Frau Schaffer. Mas tal como eu, eles fecham-se no primeiro acto. Queremos chegar aos seguintes mas a força do quotidiano toma conta dos nossos corpos e das nossas mentes.

Que seria de mim se o dissesse com amargura? É a vida que escolhemos. A vida pela qual decidimos lutar, de foice e martelo. A vida de estar a par de todas as concretizações materiais que nos forem possíveis. Não é tristeza, é aceitação. Sempre em prol da nossa amada estrela. 

Meu caro Ganske, não sou capaz de falar de balê hoje nesta comunicação. Tenho os pés demasiado pesados para a resistência de um pliè. Conto-lhe antes uma pequena história de algo que me passou no outro dia. Quem sabe não seja este o mote para outras partidas. 

Até à vista camarada Ganske!

Vinha dos meus afazeres numa noite de Outubro. Passei a esquina do meu apartamento e fui abordado por um Oh lá! Oh lá! Se não é o homem dos rabiscos.

Inicialmente achei que me confundiam. Ou que falavam de outra pessoa. Mas àquela hora eramos só nós. Ninguém mais. 

Então não me conheces? Perguntou o homem que estava numa espécie de penumbra. Respondi que não e apressei o passo.

Conheces, conheces! Sou eu Raul. O operário desconhecido. 

Detive-me por um momento e soltei um largo sorriso. Disse-lhe, operários desconhecidos somos todos. E tu, há muito que estás desaparecido!

Devolveu-me um abraço daqueles que só ele saberia dar. Depois, com a mesma prontidão disse-me, Tenho de ir. Apanho o comboio em dez minutos! Mas volto para saber de ti.

E vais para onde, perguntei. Vou para longe uns tempos. Adeus, camarada!

E desapareceu na mesma penumbra em direcção ao caminho de ferro. 

Tempos depois recebi a confirmação. Raul estava novamente a percorrer Lima, La Paz e Santiago. 

Há coisas que nunca mudam meu querido Ganske. Talvez nós também não tenhamos mudado. Apenas escolhemos cores diferentes para passar a estação. De Raul não voltarei a saber nada tão cedo, estou certo. Quando a si, espero resposta. Da minha parte, tudo depende de não me cortarem a linha. Andam demasiadas vezes em manutenção.

Saudações!



Comentários

Mensagens populares deste blogue

Mais dos Cadernos de Porto Oco

Cadernos de Porto Oco - Outros excertos

O palco dos Grandes Clássicos - A Bela Adormecida