Referências, Caro Ganske

Todos teremos as nossas. 

Durante muito tempo acreditei que as minhas se materializavam na grande estrela luminosa. Não pude estar mais enganado. Não por ter acreditado nos ideias que fazia brilhar com as suas pontas mas porque o mundo levou um sentido contrário e com ele, caro Ganske, acredito que também nós. 

A estrela ainda está lá. Como disse em comunicação anterior, não a desmontaram. Desligaram-lhe a eletricidade mas não a retiraram do mesmo lugar alto de onde continua a ser bastante visível. Por vezes ainda passo por lá. Em dias em que a pequenez volta a tomar conta de mim e parece que continuo a viver numa ilha isolada. Como digo tantas e tantas vezes, mudei a geografia mas não deixei de procurar o mar no fim de cada lomba ou depressão. 

Deixemos, porém, de lado, considerações meramente pessoais (e comezinhas) sobre aquilo que acredito ser uma fase de puro existencialismo. A força braçal rejeita-o e eu, se me permite, pela mera conveniência de poder pensar mais além, também. É que ensimesmar-se a ponderar os dilemas da existência, não raras vezes desemboca num certo romantismo torpe. Pode acontecer, é certo. Nada na lei dos homens o impede. Mas digamos que às vezes precisamos de olhar as coisas com a curiosidade incisiva de um film noir,  se é que me entende. Já sei, não voltei a dar balê e a sua televisão só passa anúncios para aparelhos auditivos. 

Porém, é essa mesma curiosidade que me faz dissecar as mesmas questões que coloquei ante a estrela. Estaremos nós naquele ponto de viragem da vida em que contamos mais histórias do que aquelas que vivemos? Digo isto porque o mundo (o eterno culpado sem rosto) está a trazer à tona a originalidade momentânea daquilo que um dia há-de ser história. Para dizer que há dias fui a um bailado. Sala cheia. Aplausos de pé, como outrora. No entanto, um cheiro a ego que não se podia. Talvez meu, talvez seu. Aquele bailado era uma porcaria. A sala era uma porcaria. Tudo tresandava a esterco naquele lugar. E só pensava na pobre estrela que, abanada pela vento, continua apagada. Há tempos perguntei a um oficial se fariam alguma coisa para reacender. Disse-me simplesmente, Não seja tolo, acender uma estrela num destes tempos só pode terminar em guerra civil. Vão então deixar simplesmente que caía do seu pedestal e deixar que o chão varra os seus despojos até um deles virar, quem sabe, peça de museu? De um daqueles museus que cheiram a bonecos de cera e onde ainda se paga em géneros?

Senhor Ganske, como nos afligimos com isto. Já sei, vai me dizer que dentro de nós ela não se apaga. Mas respondo-lhe já que isso seria voltar à mesma circunspecção que não raras vezes desagua numa paixão sofrida e, naturalmente, desiludida. É que não tenho vontade disso. Queria muito que brilhasse ali onde está e que não houvesse um oficial contrariado a guardá-la por meia dúzia de fracos tostões.

Mas também lhe digo, querido senhor Ganske, como posso eu ter outras referências se apenas me recordo dos seus olhos tristes quando constatou que o balê não ia dar mais na televisão? E, contudo, continuo a pensar que, a bem da sobrevivência tive de catar outras quantas referências e guardá-las no mesmo lugar. Nada como Martin-Frida-Rut. Nada disso. Não é competição. É talvez um caleidoscópio. Ou outra coisa. 

E quanto a si querido Ganske? Quantas referências mantém? Quantos mais bailarinos serão atirados para o esquecimento neste cosmos caótico em que vivemos? Por favor, não me responda se estiver perto de Frau Schaffer. Sei que ela gosta do tom melodramático destas confissões e de achar que é uma espécie de salvadora do reino da verdade e do pragmatismo. 

Por aqui, hoje está sol. Amanhã também. Vou sair a ver se me reencontro com uma ou outra referência. Como vê, tenho sido breve nas comunicações. Não me têm cortado a linha. Mandei Carabosse dormir. Disse-lhe, Dorme tu que agora estou demasiado consciente. De Raul não soube mais nada. Nem devo saber tão cedo. Por ora continuará a ser o verdadeiro operário desconhecido. Ele, nós não.

Até breve senhor Ganske! Dê os meus saudosos cumprimentos à "piquena".

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