Marcha
Querido Ganske,
Lamento saber que Frau Schaffer ficou de trombas consigo durante um dia inteiro depois da minha última comunicação. Não se zangue com ela. Ofereça-lhe flores e leve-a a passear no promenade operário. Da minha parte, não era minha intenção causar qualquer distúrbio conjugal. Não quero ser o causador de panos de loiça que voam e de cadeiras que caem ao chão. Mas é que poucos compreenderão estas nossas comunicações...
Talvez abra aqui um pequeno capítulo para explicar, da minha parte (que, creio, à sua corresponderá também) como tudo isto se iniciou. Muitos pensam que temos o mesmo gosto por balê. Não poderiam estar mais enganados. O deleite do bailado é inteiramente seu. Percebo muito pouco, quase nada sobre o assunto. E como tal, pouco ou nada poderia apreciar. Isto é, mais do que uma mera curiosidade sobre aquilo que é uma verdadeira paixão sua. Pela técnica, pela interpretação rigorosa dos nossos ideais (como na interpretação do jovem Werther). Pela força e robustez dos nossos bailarinos. Eu sou mais da beleza das coisas. Gosto mais do folclore. Das coisas que fazem barulho. Também porque aprecio o silêncio. Como poderia apreciar uma coisa se não soubesse da outra? Perguntei-me por largos e bons anos.
Ganske, Ganske...como me tenho debatido contra a fealdade da nossa doutrina. Não, o balê não seria o início disto tudo. Uma compreensão estética muito menos. Logo nós que não sabemos conjugar uma camisa com umas calças e estas com umas peúgas. Nós que marchamos com os mesmos sapatos rotos de há anos, por apego a quem os produz. Mas é feia de facto. As suas ruas são sujas, cheias de fuligem. Os seus céus ora cinzentos de fumo, ora rompidos pelo rubor das fogueiras. A fala é drástica e pouco suave. As nossas cozinhas são apertadas e os nossos sofás têm molas partidas. É feia, querido Ganske.
E tenho-me debatido, precisamente, porque uma parte de mim (muito egoísta) gosta da beleza. Gosta da simplicidade da beleza das coisas. Não ligo nenhuma à técnica. Desencanta-me com a mesma facilidade com que enjoo um bolo demasiado doce. Até posso ir mastigando mas a dada altura canso-me. É nisto que tudo começou, há um largo tempo ido. O meu querido amigo era já quase a mesma pessoa que é hoje. Eu mudei. O meu sangue tornou-se um pouco mais acre. A minha pele secou. A carne amadureceu. Fui até ao ponto de achar a beleza uma coisa estúpida e ridícula. Um mero impulso hormonal. E no entanto, voltei a este lugar, a estas cartas que lhe envio sem ritmo. Tudo para voltar ao exato mesmo lugar de onde partimos. Apagaram a estrela. Mantiveram-na lá, montada. Não a retirarão, nem a partirão.
Recordo sempre a sua expressão triste senhor Ganske. Os olhos pequenos tristes e o balê que deixou de passar na televisão. Em vez de pernas torneadas e braços graciosos, passamos a ver músculo onde antes havia um cérebro. Começamos a ver a indulgência onde antes havia o optimismo da construção da nossa pátria.
Não meu caro Ganske. Não foi no balê que tudo isto começou. Aquiete a sua senhora. Ela há-de perceber quando um dia levar os netos ao museu onde estará um caco da estrela. Nós, tanto quanto possível, continuaremos com o deleite de pernas que o balê nos traz. E regressaremos, quantas vezes necessárias, ao ponto de partida.
Deixarão que os vendavais a derrubem. Que seja a natureza a tratar de tudo. Ninguém quer tomar uma decisão. Preferíamos que a acendessem (com mais beleza é certo) mas, por enquanto, sabemos que a podemos olhar lá no alto. Apagada mas alta como sempre. E enquanto assim for, sonharemos. Sonharemos. E cantemos...
Senhor Ganske, aqui me despeço. É a minha vez de seguir a marcha pela mesma avenida larga e longa dos operários.
Beba muita água e evite o excesso de sódio.
Até breve!
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