Mensagens

A mostrar mensagens de dezembro, 2015

Fecho de Emissão

Imagem
Apenas por hoje.

Enquanto Carabosse...

Vai passando por aqui, querido amigo, já vamos sentindo o entorpecimento. Aquele peso nas pálpebras que se sente quando bafejados pela morte nos entregamos, por fim, ao eterno. Se houver eterno.  Há tanto que lhe poderia dizer a propósito de uma breve ausência das nossas comunicações. Começaria pelo engano no mundo, herr Ganske. Repare que digo no e não do. Impossível estar o mundo errado e, segundo, não obstante a intempérie, a estrela socialista continuou firme, no seu exacto lugar e este era o mais exposto de todos. Caiu o tecto, partiram-se as portas, instalou-se o medo... Agora imagine o seguinte cenário. Passei há dias por isto. Num caminho rolava uma esfera. Na berma um velho sentado fumava um charuto enquanto do outro lado, Isobel, prostituta de profissão ajeitava as meias. O velho teve a sensação de ver uma truta salmonada de proporções gigantescas a passar-lhe por detrás do banco. Era impossível que assim acontecesse. Caso fosse assim, Isobel teria lançado ...

Prólogo

Caro Ganske; Espero que continue a gostar do prólogo. Interessante como as personagens más, nos grandes bailados, são muitas vezes bastante bem interpretadas por bailarinos. A Carabosse da versão de 1989 é disso exemplo e outros certamente continuarão na sua memória (Vasiliev, como madrasta da Cinderela).  Proponho-lhe, entretanto, uma outra reflexão. Ainda hoje, por intermédio de um espelho, observei uma árvore de natal. A estrela no topo em tudo se assemelhava com a estrela socialista.  Não que isso me tivesse causado especial confusão. Nada disso. Sabe que nestas coisas dos símbolos, afasto-me o mais possível dos entendimentos da maioria chegando mesmo ao cúmulo de os transformar numa certa ausência. O que me causou alguma estranheza foi ter pensado (e nisto concordará certamente comigo) no principal desafio que hoje se coloca a qualquer defensor do socialismo e que se resume na questão, Onde fica a liberdade individual? Bem sei que a filosofia moderna e ...

Continuando com A Bela Adormecida

Querido Ganske; Novamente seguimos com A Bela Adormecida . Note que apesar de esta ser uma segunda carta (semelhante às insistências das companhias telefónicas) ainda nem entramos no prólogo. Carabosse ainda vem longe com as suas benzodiazepinas (curioso como de uma conversa perfeitamente banal como esta podemos antever o estado do mundo em que vivemos), já para não falar do beijo mágico que despertará Aurora do seu sono prolongado e profundo.  O objectivo, contudo, gentil Ganske, é nem entrarmos no prólogo. Pelo menos para já. Na carta anterior fiz uma referência, muito breve, à histórica performance no Teatro Kirov. Talvez tenha pecado por alguma leveza de espírito. O tempo por estes lados anda leve e fresco, veloz como só ele e quando damos por nós, dizemos aquilo que pretendemos fora do tempo certo. Todavia, repensando aquilo que lhe queria transmitir, tão pouco é esse o assunto  que me ocupa neste momento.  Sairemos, como já deve antever, pela sua ...

O palco dos Grandes Clássicos - A Bela Adormecida

Imagem
Querido Ganske; Todos nós, apreciadores da exclusividade e subtileza do balê clássico, sabemos que os grandes contos populares da história da humanidade viram o seu brilho nas pernas dos grandes bailarinos. Todas estas histórias, contadas a crianças sonhadoras (não esqueçamos que todo o sonho vem carregado de um negrume que lhe é próprio) puderam alcançar a glória eterna, de património cultural, pelo esforço dos grandes coreógrafos.  Porém, antes dos grandes coreógrafos (vénia seja feita ao eterno Marius Petipa), Tchaikovsky brindou-nos com uma versão de A Bela Adormecida, muito provavelmente inspirada na versão de Charles Perrault. É certo que seria interessante ver os Irmãos Grimm, com a sua corrente negra, a esquartejar a história da doce Aurora (ainda que na sua obra fosse apenas A Princesa), porém, no auge do romantismo poético, recuperar as tradições de outrora e a beleza porventura exagerada dos ornamentos barrocos traria uma outra composição, certamente mais ...

Baryshnikov

Imagem
Rosa; (Também para Ganske);

Depois de um breve interregno...

Dirijo-lhe novamente umas palavras de alento e conforto.  Hoje é daqueles dias em que se faz sentir a força da intempérie. Não necessariamente que o tempo esteja mau. Exageramos todos quando nos referimos a mau tempo. Recontamos a história à nossa maneira, assim é.  Este palavreado do tempo fez-me lembrar a história do bailarino que em tempos desertou. Uma jovem promessa no seu país, uma das mais aclamadas figuras no ocidente capitalista. E a sua relação secreta com outro bailarino (abstenho-me de nomes porque estas coisas são sempre subentendidas). Contam as histórias (rumores, para ser exacto) que sonhavam ambos em pisar o palco em simultâneo. E fizeram-no antes que o soubessem.  Enquanto Igor (chamemos-lhe assim) segurava nos seus braços a doce Svetlana, Jon ficava a meia luz, ao fundo, num tendu permanente, ao lado de Irina. Jon. A companhia não lhe dava outro destaque que aquele, a meia luz de fundo, a personagem que a história não recordaria....