Mudança de Corpo




Querido Ganske;



Creio que assim já poderemos nos tratar. Afinal, partilhamos este mesmo anseio por pisar aquele palco de fantasia. Dir-me-á que ficou para trás. Respondo-lhe que o eterno fica para a frente. E, convenhamos, muito temos disso. Bem sei que devo ter cuidado com estas questões do divino eterno mas sabe como é, uma vez abertas as fronteiras do nosso ser e encontrado o mundo além do muro tudo volta à condição de caos. 

De qualquer forma não é esse o assunto que aqui me traz. Tão pouco lhe venho falar dos festejos de uma qualquer sociedade. Há um aspecto que gostaria de deixar à consideração. A mudança de corpo dos bailarinos, o aperfeiçoamento da técnica, a reinterpretação das peças...

Experimente ver o fabuloso «pas de deux» de D. Quixote com a dupla (também ela eterna) Maximova e Vasiliev. Experimente, por curiosidade, ver a mesma peça com Zakharova e Uvarov. Entenderá a diferença de que falo. Os dois últimos têm uma amplitude escultural que quase nos remete para as interpretações de Profokiev. O corpo é belo e aprimorado. A elegância de Zakharova, com o vigor, algo subtil, masculino de Uvarov são absolutamente inegáveis. Contudo, neste concreto continuo a preferir a anterior. Ainda que incomparáveis (comemos cereais diferentes) por corpos distintos, há em Vasiliev uma força motriz estonteante. A sua força de pernas é absolutamente bela, ainda que os movimentos mais contidos (esclareça-me se houver qualquer coisa de Vaganova) e todo o seu corpo parece conduzir a elas. 

Confuso? Espero que não. 

Saudações

Agasalhe-se porque pode arrefecer.

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